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Sempre Mulher – Uma conversa informal…

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Uma história de meu pai

 

Lembro-me dos seus últimos anos de vida como um presente muito lindo que recebi.

Roberto Shinyashiki

Um dia, quando já era médico, fui passar um fim de semana na casa dos meus pais, em Santos.

No sábado à noite, resolvi sair e, quando retornei, lá pelas duas da madrugada, percebi a luz acesa

no escritório de meu pai. Dei um sorriso, daqueles que filho dá quando sente que é uma oportunidade

para fazer uma brincadeira com o velho. Meu pai sempre foi uma pessoa exigente e disciplinada e me

lembrava o tempo todo de apagar as luzes da casa.

Imediatamente, pensei: “Amanhã cedo vou atazanar o velho”. Caminhei em direção ao escritório para

apagar a luz e percebi que lá dentro havia alguém. Fiquei surpreso, pois meu pai nunca dormia depois

das onze. Seria um estranho? Um ladrão? Quem estaria lá?

Entrei com a ousadia e a impulsividade comuns aos jovens, mas, quando cheguei perto, ouvi o choro de

meu pai. Acho que foi a primeira vez que o vi chorando. Preocupado com a possibilidade de estar

acontecendo alguma desgraça, entrei e perguntei:

— Pai, o que está havendo?

Ele olhou para mim com uma expressão muito angustiada e disse:

— Sabe, filho, estou muito triste, porque sinto que perdi a minha vida. Realizei todas as metas

a que me propus: fui uma criança pobre que queria ter dinheiro, e consegui dinheiro. Queria  ter uma

casa linda, e a gente tem. Queria conquistar o respeito das pessoas, e hoje elas me respeitam. Realizei

todas as minhas metas, filho, mas não consegui ser feliz…

Não vi vocês crescendo e tenho a sensação de que não vivi em paz. É muito triste, filho. Depois de dois

enfartes, tenho a impressão de que vou morrer sem ter conseguido ser feliz. Fiz as coisas que os outros

esperavam que eu fizesse, que desejavam que eu fizesse, mas fico me perguntando se fiz as coisas que me

fariam feliz. Agora tenho a sensação de que é muito tarde para viver.

Ficamos conversando durante muito tempo e, quando os raios da manhã penetraram entre as frestas da

janela, já mais calmo, ele me contou:
— Sabe, filho, às vezes percebo você correndo atrás do sucesso e se esquecendo da vida,  esquecendo de si

mesmo. Quero lhe pedir que não viva simplesmente para ter o sucesso e a admiração dos outros, viva

para ser feliz. Não quero que, no futuro, você conclua que conseguiu a admiração de todos mas não foi

feliz, pois a dor é muito grande.

A gente se abraçou e, a partir daquele momento, algo mudou entre nós. Passamos a ser amigos de

verdade. Depois dessa conversa, meu pai ainda viveu mais ou menos quinze anos e, quando ele se foi,

deixou uma herança muito especial: a transformação que fez em sua vida.

Ele mudou intensamente. Nos últimos anos, tornou-se mais afetivo, mais carinhoso, freqüentemente

ligava para dizer que estava com saudades e a gente conversava muito.

Lembro-me dos seus últimos anos de vida como um presente muito lindo que recebi.

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