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Um Outro Jejum


um outro jejumO ato de comer e beber são extremamente significativos na Bíblia. No Éden, toda a moralidade decaída é passada para a humanidade através do ato de comer um fruto (Gênesis 2:17). Os sacrifícios oferecidos à Deus são alimentos (Levíticos 6:25, 26). A comunhão entre os irmãos na igreja primitiva se dava através de uma refeição (Atos 2:42, 46). Jesus se compara ao pão (João 6:35). Relembramos a morte de Cristo comendo o pão e bebendo o sangue das uvas (Lucas 22:19). O reino de Deus é comparado a um banquete (Mateus 22:1-14). A comida é o símbolo da dependência que o homem tem de Deus (Deuteronômio 8:3), mas também do amor de Deus pelo homem. Ninguém tem controle dos processos naturais que fazem uma semente germinar e dar alimento. Se estamos vivos, é porque comemos. Se comemos, é porque Deus deu o alimento. É Deus quem sustenta a vida do homem. O centro é Deus, não o homem.

Mas tão significativo quanto o ato de comer é a atitude de se abster de comer. O jejum, em primeira instância, é uma manifestação de que estamos conscientes de nossa dependência absoluta de Deus. O jejum na Bíblia está frequentemente associado ao rasgar as vestes, se vestir de sacos e se cobrir de cinzas (Ester 4:3). Para os autores da Bíblia, ao orar dessa maneira o homem se coloca diante de Deus como um morto – não come, está coberto de vestimentas fúnebres. É como se ele estivesse demonstrando para si mesmo (e para Deus) que sem Deus, se Deus não intervir, só há a morte. O centro de toda a atitude, iniciativa e pensamento é deslocado do homem para Deus.

É o oposto de toda essa atitude de entrega que é criticado em Isaías 58. O povo pergunta por que seu jejum é ignorado por Deus, e a resposta divina através do profeta é que “no dia em que jejuais achais o vosso próprio contentamento, e requereis todo o vosso trabalho. Eis que para contendas e debates jejuais, e para ferirdes com punho iníquo; não jejueis como hoje, para fazer ouvir a vossa voz no alto” (Isaías 58:3,4). Aqui o jejum é usado apenas como um meio de impor a vontade humana à Deus. É o pensamento mágico: se eu pronunciar o abracadabra corretamente, o coelho tem que sair da cartola. No pensamento pagão, é através do ritual que o homem manipula os deuses e as forças da natureza.

O jejum de Isaías 58 está no contexto da solenidade mais importante do calendário judaico. Nos versos 3 e 5 o jejum está associado a ação de “afligir a alma”. Essa expressão é usada na Bíblia no contexto do “Yom Kippur”, o dia da expiação (Lev 16:29,31; Lev 23:27,29,32;  Num 29:7). Era esse o dia em que Deus fazia “expiação pelos filhos de Israel de todos os seus pecados, uma vez no ano” (Lev 16:34). O grande favor divino, a expiação dos pecados, não pode ser exigida em atitude arrogante. O centro é Deus, não o homem.

Ao invés do jejum, Isaías 58 propõe outra atitude: “Porventura não é este o jejum que escolhi, que soltes as ligaduras da impiedade, que desfaças as ataduras do jugo e que deixes livres os oprimidos, e despedaces todo o jugo? Porventura não é também que repartas o teu pão com o faminto, e recolhas em casa os pobres abandonados; e, quando vires o nu, o cubras, e não te escondas da tua carne?” (Isaías 58:6,7). Agora, o centro está voltado para o homem, e não para Deus. Ou ainda – cumprimos nossa obrigação para com Deus quando salvamos a vida humana. O homem que está no centro não é o religioso diante de Deus, mas o pedinte, o necessitado, que está ao seu lado. O centro da religião pura é sempre o outro.

O objetivo de todo ritual, cerimônia e liturgia na Bíblia não é a mudança da intenção divina, não é a mudança do mundo, mas a mudança do homem. A religiosidade que não desperta a misericórdia é vã. É a mudança daquilo que está no mais profundo íntimo do ser humano que causa o favor divino, e não o ritual exterior. Entretanto os rituais, cerimônias e liturgias não são meras encenações dispensáveis – cerimônias com significado causam a reflexão, e a reflexão, o arrependimento. O jejum deve ter, necessariamente, um significado pessoal para cada um que o pratica.

A partir do verso 8 o texto fala de uma série de promessas (maravilhosas) que são dadas àqueles que cumprem o verdadeiro jejum, o da misericórdia e da piedade. O que alcança esse ideal divino interfere na história do povo de Deus e restaura antigas verdades, que nunca deveriam ser esquecidas:

“E o Senhor te guiará continuamente, e fartará a tua alma em lugares áridos, e fortificará os teus ossos; e serás como um jardim regado, e como um manancial, cujas águas nunca faltam. E os que de ti procederem edificarão as antigas ruínas; e levantarás os fundamentos de geração em geração; e chamar-te-ão reparador das roturas, e restaurador de veredas para morar.” (Isaías 58:11,12)

por Rolnei Tavares


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  • Renata Cabral em 8 de maio de 2016 09:25

    Bom dia irmãos, que explicação! Nunca ouvi falar de jejum dessa forma estou maravilhada. Existe outros comentários sobre este assunto”jejum?