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Amando com Inteligência


amando com inteligencia

“Ame ao senhor teu Deus com o máximo da tua inteligência”

 “Certa ocasião”, diz a Bíblia, “um perito na lei levantou-se para pôr Jesus à prova e lhe perguntou: ‘Mestre, o que preciso fazer para herdar a vida eterna?’” (Lc 10.25).

Seguindo o estilo dos rabinos, Jesus responde com outra pergunta: “o que está escrito na Lei? Como você a lê?” (v. 26). O doutor da lei deu a resposta clássica da época [1]: “Ame o Senhor, o seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma e de todas as suas forças e de todo o seu entendimento” e “Ame ao seu próximo como a si mesmo”. De acordo com o relato, Jesus concordou com a resposta: “Você respondeu corretamente” (v. 28) [2].

Nosso interesse aqui está no uso que o mestre da lei e Jesus fizeram do termo “entendimento”. No grego, a palavra utilizada pelo rabino, e que ganha o apoio de Jesus, é nous. Esse é o termo mais intelectualizado da língua grega, isto é, o que mais está ligado a características como mente, razão, pensamento, reflexão e inteligência [3]. Se fossemos traduzir de forma exata, poderíamos dizer que, de acordo com Jesus, o mandamento mais importante da lei é: “Ame ao Senhor teu Deus (…) com o máximo da sua inteligência, da sua razão, da sua reflexão”.

Infelizmente, é triste verificar como os cristãos vêm negligenciando o mandamento mais importante. “Deus só se interessa pelo coração”, dizem alguns; “não é bom estudar demais: o estudo afasta o homem de Deus” afirmam outros; ou ainda “Deus não precisa de argumentos racionais, nem de advogados”.

Todos esses raciocínios costumam dividir o ser humano em “pedaços”. E o interesse de Deus seria apenas em alguns desses “pedaços”. O mandamento mais importante tem justamente a intenção de dizer que homens e mulheres não são seres divididos, mas que cada esfera de sua vida deve ser dedicada ao Senhor de modo máximo: coração, alma, força física e inteligência.

Os cristãos sempre entenderam isso. Anselmo desenvolveu o que os filósofos chamam de argumento ontológico para a existência de Deus [4]. O Arcebispo da Cantuária propôs um argumento que poderia provar que Deus existe através da razão. Mas para o teólogo da Cantuária, seu objetivo não era apenas provar a existência de Deus para filósofos, uma vez que o próprio Anselmo afirmava que não precisava de um argumento racional para crer. Deus já tinha dito em seu coração que ele era cristão!

“Então”, pergunta você, “porque ele desenvolveu esse argumento?”. A resposta de Anselmo é belíssima: “Confesso, Senhor, com gratidão, que me criastes à vossa imagem para que eu possa lembrar-me de vós, pensar em vós e amar-vos” (Proslogion, cap. 1) [5]. Para Anselmo, o desenvolvimento do argumento ontológico era uma forma de lembrar-se de Deus, pensar em Deus e, cumprindo o grande mandamento, amar a Deus! Todo o argumento é escrito em forma de oração.

Deus se interessa pelo ser humano todo, em todas as esferas da sua vida, inclusive sua inteligência e racionalidade. Isso não significa que todos os cristãos são obrigados a estudar filosofia e entender todos os debates sobre metafísica. Mas significa que, no máximo que minha razão permitir, no máximo de tempo que tiver, no máximo de oportunidades que me vier, irei procurar amar ao Senhor Deus com o máximo da minha inteligência!

Bruno Ribeiro

Referências

[1] Vários documentos do tempo de Jesus afirmavam que os maiores mandamentos da Lei resume-se em “amar a Deus acima de todas as coisas” (Deut 6.5) e “ao próximo como a si mesmo” (Lv 19.18). Veja: Testamento de Issacar, 5.2; Testamento de Dã 5.3.

[2] Essa é a mesma resposta que Jesus deu em outras passagens, quando perguntado sobre qual era o mandamento mais importante (Mt 22.37 e Mc12.29-31).

[3] The Shorter Oxford English Dictionary on Historical Principles. Oxford University Press, 1973, p. 1417.

[4] O argumento ontológico de Anselmo se encontra na obra Proslogion. Ele ainda é defendido por vários filósofos da religião como Alvin Plantinga (Deus, a liberdade e o mal, p. 109-138) e Willian Lane Craig (Apologética Contemporânea, p. 177-183).

[5] Anselmo. Proslogion, cap. 1. In: SMITH, Plínio (Org). Dez provas da existência de Deus. São Paulo: Alameda, 2012.


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  • FABIO HENRIQUE MACEDO MENDONCA em 17 de junho de 2015 12:30

    Bastante interessante o artigo. O que me chama mais atenção é a diferença de redação de Deuteronômios 6:5 e Mateus 22:37, ao passo, que, Marcos 12:30 confirma o texto de Deuteronômios 6:5. A palavra “entendimento” me parece estranha ao texto original, significando uma redundância do texto da Lei de Deus. O termo “entendimento” tem o mesmo sentido de “coração” para os judeus. Para os Judeus, o termo “coração” tem um sentido de “centro da razão, emoção e sentimento”, logo, o coração é a cabeça, onde está o cérebro; ou seja, o coração dos Judeus está na sua cabeça, e para os gentios, o coração está dentro do peito, tendo mais ligação com emoção desprovida de razão. Talvez por uma motivo de melhor entendimento da palavra pelos gentios, o termo “entendimento” foi empregado pelos evangelistas; mas, no meu ponto de vista, o “termo “coração” já engloba tudo (centro das emoções, sentimentos e da razão). Amar a Deus de todo o coração significa pensar em Deus, conhecer a Deus, crer em Deus pela razão, sentir que Deus está na sua vida e amá-lo com o seu entendimento. Já “Amar a Deus de todo a sua alma” significa dedicar a sua vida à Deus, englobando o seu testemunho pessoal, todas as coisas que você aplica em sua vida que dão testemunho para as outras pessoas de que Deus realmente está na sua vida (tais como: não fumar, não beber, respeitar o corpo como templo do Espírito Santo, se alimentar de animais puros, e o seu estilo de vida de um modo geral). E por fim, “amar a Deus com toda a sua força” significa amar a Deus com os seus bens, e neste sentido, a palavra força para os Judeus pode significar “dinheiro” e “ações”, tanto as atitudes de bondade e de caridade como o dinheiro dado em oferta, dizimado, ou dado como esmola são “poder”, quando bem empregados na obra de Deus são manifestação do poder de Deus na sua vida, por isso, amar a Deus com toda força significa ofertar, dizimar, dar esmolas, ajudar fisicamente alguém necessitado (bom samaritano). O supremo mandamento de Amor de Deus engloba: mente (coração), estilo de vida (alma) e ações de caridade (força). Parabéns pelo artigo, foi muito bem escrito.