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Análise do Cotidiano

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Realengo: a tragédia que chegou ao Brasil

Pela televisão, os primeiros casos surreais de atiradores em escolas norte-americanas chegavam aos lares brasileiros como notícias indigestas. Entre várias situações similares, as mais dramáticas talvez sejam duas: a primeira, ocorreu ironicamente em um 2 de Novembro em 2006. Charles Carl Roberts, motorista de um caminhão de entregas, invadiu uma escola amish (grupo cristão conhecido pela austeridade no estilo de vida e forte apelo à vida comunitária). Cinco meninas foram amarradas e mortas; em seguida, Roberts cometeu suicídio. Poucos meses depois, o estudante sul -coreano Cho Seung-hui promoveu um verdadeiro massacre na Universidade Virginia Tech, em Blacksburg. Morreram 32 pessoas naquele fatídico 16 de Março de 2007.

Fora das terras do Tio Sam, Tim Kretschmer chocou a Alemanha ao invadir, em 11 de março de 2009, a escola secundária de Albertville, na cidade de Winnenden, e assassinar dezenas de estudantes. O rapaz foi perseguido pela polícia e, para não fugir do roteiro, suicidou-se ao se ver cercado pelos oficiais.

Nesta manhã de quinta, o que parecia tornar-se comum em escolas estrangeiras atingiu drasticamente ao Brasil. E justamente no Rio de Janeiro, estado tão sofrido, cuja bela geografia – assediada por turistas do mundo todo – tem servido de palco para sangrentos confrontos entre traficantes e policiais.

Wellington Menezes de Oliveira chegou insuspeito na escola municipal Tasso da Silveira, em Realengo, na zona oeste do Rio de Janeiro. O rapaz, de 23 anos, ex-aluno da escola, passou pela portaria ao alegar que faria uma palestra na instituição. Antes de comparecer ao prédio escolar, já baleara duas pessoas fora do recinto. Wellington subiu três andares entrando em salas de aula, numa espécie de ritual macabro. Era o início do terror.

Munido com dois revólveres de calibre 38, o jovem deixou mais de 30 feridos, sendo que até agora mais de 10 alunos faleceram. O massacre só não foi mais drástico devido à intervenção do sargento Márcio Alves, da Polícia Militar. Durante uma blitz nas proximidades da escola Tasso de Oliveira, o policial soube por uma vítima o que estava acontecendo. Mais do que depressa, ele compareceu ao local a tempo de confrontar o atirador. Wellington foi baleado e, na impossibilidade de prosseguir com seus planos, cometeu suicídio.

O crime bárbaro extraiu declaração emocionada da presidente Dilma Rousseff, conhecida por sua índole pouco emotiva. “Não era característica do país ocorrer esse tipo de crime, por isso eu considero que todos aqui, todos nós, homens e mulheres, aqui presentes, estamos unidos no repúdio àquele ato de violência, no repúdio a esse tipo de violência sobretudo com crianças indefesas”, desabafou a mandatária da nação.

Encontrou-se uma carta digitada junto aos pertences de Wellington segue na mesma trilha perversa de outros lunáticos: fissuras com ideias de pureza religiosa, pedido de perdão a Deus e mensagens desconexas. Mesmo que psquiatras desvendem a paranoia do assassino, será de pouco ou nenhum conforto para as famílias enlutadas em razão do crime mais brutal jamais cometido em uma escola brasileira.

Aliás, qual conforto encontrar em uma hora como essa? O que dizer para dezenas de famílias brasileiras que perderam entes queridos em uma escola, lugar o qual não deveria oferecer nenhum tipo de risco à sociedade? Como cristãos, como assimilar que um Deus de amor permita que tanto mal seja praticado contra inocentes? Certamente, muitas perguntas poderiam ser levantadas. Algumas com respostas humanamente impossíveis de serem alcançadas.

Uma coisa é certa: tragédias como as que testemunhamos nos lembram sorrateira e cruelmente da existência do mal. Embora as pessoas se entorpeçam com entretenimentos e a sensação de otimismo desponte irrefreável, nosso mundo decreta falência em várias áreas, como moralidade, segurança, bem-estar e garantia de felicidade, para ficar com aquelas que me parecem mais bem relacionadas a calamidades como a que teve lugar em Realengo.

O que esperar para o futuro? Mais segurança nas escolas? Reforma estrutural no policiamento? Novas decisões políticas para tranquilizar cidadãos? Não me soa racional crer que quaisquer medidas nestas direções façam mais do que conter momentaneamente a crise por conta da tragédia. Longe de um fato isolado, o que aconteceu aponta para uma direção escura, enevoada pelos piores pesadelos de cada pai e mãe, incertos de que, ao se despedirem dos filhos antes das aulas, reencontrar-se-ão com eles ao soar o último sinal no turno letivo.

A única esperança somente pode estar associada com Aquele que prometeu algo melhor para os seus filhos (Jo 14:1-3; Ap 21). Para além de um mundo em que mesmo escolas se transformam em trincheiras e crianças viram alvo, Deus promete um lar. Como ministro e educador, eu não posso conceber algo melhor do que a promessa feita por Jesus.

Ainda hoje à tarde, estive em uma aula com o terceiro ano do Ensino Médio. Em meus quase cinquenta minutos com os alunos, cantamos músicas cristãs, assistimos em um vídeo curto a apresentação de um teatro de sombras e refleti com eles, a partir da história bíblica de Neemias, sobre o poder da união. Ao fim, sugeri que eles orassem entre amigos e, em seguida, eu oraria com todos eles. Qual não foi minha surpresa quando a turma decidiu fazer um grande círculo para oraração em conjunto, por serem todos amigos? Terminamos a aula nos abraçando. Alguns choraram, porque aquilo lhes fez bem, não só como uma catarse, todavia, por se sentirem próximos de Deus e uns dos outros. Ah, se todas as aulas terminassem assim! Em um mundo de tanta dor e injustiça, nada como sair da escola sabendo que a vida continua e continua para sempre para aqueles que confiam nas palavras do maior Professor de todos os tempos, quando afirmou: “Voltarei!”

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Stan Lee: a lenda que ainda acredita em lendas!

Ninguém imaginaria ver o Super-Homem lutando com o desemprego ou diante de problemas na sua vida “civil” por causa da dupla identidade. Entretanto, justamente isso se sucedia com o Homem-aranha, um rapaz franzino que teve “azar” e se tornou um herói. Justamente essa dimensão humana, os conflitos psicológicos e uma imersão no dia a dia fizeram dos heróis da Marvel Comics a vanguarda dos anos 60s. Por trás da revolução, existe um nome: Stan Lee.

Lee é, assombrosa e certamente, o maior criador de HQs ainda vivo. Ele reestruturou as comics ao contrapor ao heroísmo de colan o aspecto dramático oriundo do mundo real. Não que realismo e verossimilhança não houvesse antes: nós os encontramos, por exemplo, na obra de Will Eisner, gênio criador de The Spirit. Mas as personagens do universo noir de Eisner não eram, a rigor, super-heróis. Com o trabalho de Stan Lee, o panteão das HQs ganhou novos contornos. Surgiram Hulk, Demolidor, Quarteto Fantástico (que hoje não é mais um quarteto), X-men, além de um certo escalador de paredes…

Aliás, até hoje o cérebro por trás das HQs da Marvel não conseguiu se lembrar se houve ou não a participação de seu ex-parceiro Jack Kirby na concepção do uniforme do Homem-aranha. Oficialmente, Lee divide a criação com Steve Ditko. Mas, segundo o próprio Stan Lee, originalmente a parceria era com Kirby e só não continuou porque sua primeira versão do cabeça de teias era muito musculosa e, portanto, convencional (seguia o padrão dos demais heróis). Como Lee queria uma personagem adolescente, procurou outro desenhista, no caso, Ditko. Em meio a esta situação confusa, o próprio Lee não sabe dizer se o uniforme do aranha desenhado por Ditko havia sido concebido antes por Kirby ou se o próprio Ditko o inventou. Vai saber…

Lee tem brincado de Wally na última década: vive um eterno esconde-esconde nos filmes dos heróis que criou, aparecendo em longas do Homem-aranha, Homem de Ferro, entre outros. Mas sua interação com novas mídias não se limita ao seu lado “bicão de festa”.

O roteirista continua trabalhando, sempre em contato com um público ainda mais exigente. Prova disso é o envolvimento de Lee na estranha série Super-humanos, veiculado pelo History Channel. O programa busca pessoas com supostas capacidades além das explicações convencionais da ciência. A bizarrice é digna de um programa dominical. Mas Lee jura de pé junto que não vê outra alternativa do que crer que as pessoas exibidas em seu programa sejam, de fato, super-humanos. Ou seja: ele falou tanto em aranhas radioativas e raios gama que agora deu para acreditar no que antes era ficção!

Surpreendente mesmo é o novo projeto de Stan Lee, em parceria (inusitada) com Arnold Schwarzenegger: a série The Governator. Filmes, desenhos animados e HQs fazem parte desse projeto, formando um pacote com aspecto retrô. Na série, Arnold é… tcham-tcham – Arnold! Supreso, né… Pois bem, o ex-governador passa a combater o crime com a ajuda de um jovem nerd (o velho tema do herói e do parceiro mirim). Em um spoiler do desenho animado, o que se vê é uma cópia descarada do visual de O Exterminador do Futuro, filme que consagrou o ex-governador da Califórnia. Até alguns robôs que Arnold destrói são a cara dos famosos exterminadores da obra de James Cameron. Provavelmente se Cameron não estivesse tão interessado com ecologia na sua existência pós-avatar, já teria processado Stan Lee. Ou não: afinal, o conceito de viagem no tempo já havia sido utilizado em uma história do X-men (da dupla Claremont e Byrne, lembra?) de forma bem semelhante a do filme O Exterminador do Futuro (Cameron nunca escondeu a inspiração). Parece, portanto, que Stan Lee deu troco.

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Os vendilhões voltaram para o templo

Com tantos artistas seculares se convertendo, cresce o prestígio comercial da música gospel. Nomes como Rodolfo Arantes, Regis Danese, Aline Barros, apenas para citar alguns, contribuem para a popularização de tendências e venda de produtos para um mercado crescente.

Num país de forte tradição evangélica como os Estados Unidos, a música religiosa já é assumidamente um produto do capitalismo religioso, o que às vezes é camuflado por supostas intenções evangelísticas ou mero background cultural.

Entretanto, muitos conjuntos funcionam como lucrativas empresas. E à semelhança das bandas seculares, o sucesso e os lucros costumam causar cizânias, conduzindo ex-integrantes de grupos famosos a convenientes carreiras solos.

Na década de 90, o tenor Brian Free fez sucesso com seu timbre agudo, gravando com o antológico quarteto Gold City. O último álbum da fase de ouro (que contava ainda com o lead Ivan Parker, a voz por traz de Midnight Cry) foi Acapella Gold. Depois disso, Free fundou seu próprio quarteto, o Assurance.

No site do grupo, Brian Free destaca sua passagem pelo Gold, mas frisa que agora tem seu próprio quarteto (que, aliás, segue o mesmo estilo do Gold City, o qual permanece sob liderança de Tim Riley e família). Alguns ex-membros do conjunto Acapella, também se associaram, formando o Exapella, cujo repetório não passa das velhas e conhecidas músicas de sua antiga compania. O esforço tem lá seus méritos por reunir Kevin Schaffer, Duane Adams, Gary Moyers e Gary Evans numa mesma formação (o que durou um único evento).

Um caso ligeiramente diferente é o Gaither Vocal Band: o quarteto, que recentemente completou jubileu de prata, sempre apostou em suas estrelas, o que custou ao produtor musical Bill Gaither um enorme trabalho para substituir os cantores à medida em que esses se decidiam pela carreira solo, como aconteceu com Terry Franklin, Michael English e David Phelps, entre outros.

Agora, Bill reuniu English (uma mera sombra da voz que foi), Phelps (cada vez estrela) e Mark Lowry (comediante e barítono nas horas vagas) com Wes Hampton (o tenor que substituíra Phelps), formando com eles um novo grupo, desta vez um quinteto (Bill canta baixo; ou tenta…). Certamente, carreiras-solo sem muita empolgação contribuíram para os ex-componentes voltarem.

Mas que ninguém se iluta: ministérios personalíssimos, performances surpreendentes e o aspecto de um culto animado escondem o que o gospel, em todas as suas vertentes – dos quartetos às bandas, dos caipiras aos metaleiros, do country ao pop – tem de mais comprometedor: seu lado explicitamente comercial. Ou seja: os vendilhões voltaram para o templo!

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Papagaios que dizem aleluia

Já faz tempo que me deparei com a expressão “papagaio de pirata”. Ela descreve bem a atitude de alguns políticos de menor importância que gostam de parecer no palanque ao lado de grandes líderes nacionais, com o objetivo de “sair na foto”. Alguns tietam artistas com o mesmo objetivo: aparecer junto a eles, como se isso bastasse para que a fama fosse transferida por osmose.

Lamentavelmente, temos de reconhecer: o gospel também tem seus “papagaios de pirata”, aqueles que fariam tudo para serem contados juntos com os grandes artistas. Isso se deve ao aumento da mídia evangélica, proporcionando que cantores e pregadores sejam alçados ao patamar de vedetes.

Em muitos casos, há genuíno talento nesses artistas do Senhor (ao contrário de muitos de seus equivalentes seculares, que alcançam a fama pela exposição na mídia). Todavia, o cerco em torno deles favorece de tal maneira às honras humanas que a auto-glorificação soterra o seu ministério. São piores do que o homem da parábola, que recebera um talento (Mt 25): aquele, enterrou o que recebera do Senhor; eles, saem a exibi-lo, como se o tivessem ganho sozinhos!

O culto à personalidade no meio gospel absorve os adoradores cristãos, e concorre diretamente com o culto ao próprio Deus. Quando se trata de ir assistir a banda gospel favorita, alguns, que de outra forma não iriam até a igreja na esquina de sua casa, movem montanhas (mas não pela fé!). Coleções de CDs, DVDs, participação frequente em fóruns na internet, e até pôsteres (!) de artistas constituem, para alguns, uma idolatria camuflada em admiração saudável.

Não que seja errado reconhecer o talento de meu irmão; não que a honra não seja devida a quem faz algo bem feito para a obra do evangelho. Entretanto, tudo no fim deve nos conduzir a Deus, que usa as pessoas e distribui graciosamente dons aos homens, para a edificação mútua (Ef 4:11 e ss.).

Aqueles que se esqueceram dessa verdade fundamental deveriam considerar Hebreus 12:2. Ninguém deve ocupar o lugar de Jesus em nossa vida. Ele é o Único, o Santo, o inteiramente Outro. Amigos faltam com a palavra. Familiares podem nos lesar. Líderes espirituais são passíveis de erros. Apenas Um é Desejável, Perfeito e plenamente Justo. A Ele devemos a salvação. Mas quando glorificamos o homem, olhamos tão para baixo que nos esquecemos de Quem habita os altos Céus.

Já passa o tempo de voltarmos as costas para conveniências e bajulações. Basta de papagaios dizendo aleluia como quem diz “esse é o cara”, “você é o máximo”. Toda glória seja dada a Deus! Se você quer se aproximar de alguém que merece sua atenção e dedicação, vá agora ao Senhor Jesus – e Ele jamais “o lançará fora” (Jo 6:37).

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Religião: espécie em extinção

Um novo estudo publicado no site do Estadão adverte que a religião pode se extinguir em nove países: Austrália, Áustria, Canadá, República Checa, Finlândia, Irlanda, Holanda, Nova Zelândia e Suíça. O prognóstico pessimista leva em conta dados do censo desses países, que constatou o alarmante crescimento de pessoas que se declaram sem-religião.

Por que uma sociedade entra em processo de secularização? O que suscita o afastamento de pressupostos religiosos? Sugiro que a inocuidade da religião, pensando em concepção de vida, assume o posto de fator preponderante. Para sermos justos, diversos fatores contribuem para o processo. Não obstante, o mero desenvolvimento industrial e tecnológico, e as demandas da vida consumista nos grandes centros urbanos, per si, constituem explicações incompletas. A meu ver, a mutilação da estrutura religiosa (condicionalmente esvaziada pelo zeigeist da vez), ou sua inadequação ao contexto pós-moderno, explica melhor a problemática; afinal, se a fé falha em prover com suporte holístico o homem do século XXI, por que manter sua estrutura conceitual?

Logo, as religiões (incluindo, infelizmente, o cristianismo) se mantêm em um sentido diametralmente oposto ao da racionalidade pessimista, que sub-repticiamente se instalou na modernidade, desembocando na pós-modernidade. O que pode salvar o cristianismo? Um senso de missão, sem dúvida, implicaria em envolvimento dos seus adeptos, acarretando aprimoramento da vivência religiosa fora das paredes do templo. Tem de ser observado, entretanto, que se a missão se restringir à quantidade de pessoas aceitas na comunhão da igreja por meio do batismo, estaremos reduzindo o propósito integrador e holístico do cristianismo.

Integrador, porque a participação na missão não cessa quando alguém toma parte em um rito de iniciação. Integrar-se em uma comunidade requer convivência e readaptação a um novo padrão de vida. Os membros da igreja são responsáveis por permitir ao novo converso acesso e participação em seu estilo peculiar de vida permeado pela vida na comunidade ideal de Deus. A vida em comunidade também envolve o reconhecimento e uso do dom espiritual concedido a cada crente (1 Co 12), o qual deve ser empregado de forma harmoniosa, para crescimento da comunidade (Ef 4). Cabe aos ministros a função de desenvolver os dons espirituais (Tt 1:5, onde a palavra traduzida por “estabelecer” significa levar de um “ponto a outro”, “desenvolver”).

O propósito integrador está associado ao segundo, dito holístico. O cristianismo não se limita a atividades de fim de semana. Cristianismo engloba administração de emoções, perfil profissional, aquisição de conhecimento, relacionamentos interpessoais e todas as demais temáticas existenciais referentes ao indivíduo. Obviamente, alguns elementos são acrescidos com a maturidade espiritual, razão pela qual não se pode esperar perfeição em estágios iniciais – e mesmo perfeição absoluta se torna onírica e fantasiosa; fala-se em integridade, em perseguir propósitos e busca de maturidade.

O cristianismo medíocre que ora viceja é o pai da secularização. Apenas quando ele voltar ao seu cerne, poderá virar o jogo, em termos de influência decisiva sobre indivíduos e sociedade.

 

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Colha o dia

Depois de viver obcecada pelo futuro, Jenifer descobriu o prazer das pequenas coisas – passear na praia, telefonar para os amigos, sufocar antigos rancores, comer bolinhos de chuva, levantar-se depois das dez – enfim, ela entendeu que a vida é feita de pequenos momentos que devem ser vividos ao máximo e no presente. Este relato poderia servir de desfecho para qualquer comédia romântica. Mensagens assim aparecem também em músicas, livros e até em discursos religiosos.

Aliás, este tema acompanha a Literatura ocidental desde os gregos. Os melhores líricos cultivaram o gênero que recebeu o nome de carpe diem (“colha o dia”, expressão de Horácio, poeta latino que inovou o gênero). “[...]O sentido é, pois, apanhar o tempo correto, destacando-o do abstrato tempo da vida.” (Francisco Achbar, “Lírica e Lugar-comum – alguns temas de Horácio e sua presença em Português, p. 94). Na prática, o carpe diem é um convite para se aproveitar o dia de hoje, já que não se tem certeza do amanhã, que merece ser ignorado, porque talvez jamais chegue a existir. Não existe, dentro desta visão, limites para se promover o prazer ao máximo (essa busca pelo prazer como um objetivo é chamada de hedonismo). Isto soa familiar?

Mesmo se para alguns o nome “Horácio” não signifique nada além de um dinossauro verde das histórias em quadrinhos, a influência grega ficou. Milhares “colhem o dia” junto com as consequências de um estilo de vida egoísta e irresponsável. Abortos. Embriaguês. Doenças venéreas. Culpa. Depressão. Há saída?

Claro que a Bíblia também trata da brevidade da vida. Salomão nos aconselha a aproveitar nossa curta existência; escrevendo o Eclesiastes, no qual o sábio insiste mais no assunto, ele fala diretamente aos jovens através de um poema (Ec. 11:9-12:8). Este texto se constitui no auge do livro de Eclesiastes e não seria exagero colocá-lo entre os melhores poemas da Literatura Mundial (Horácio teria inveja!).

Na passagem, Salomão nos apresenta a juventude como época de aproveitar a vida – “satisfazer o coração”, “agradar os olhos”, “afastar o desgosto” e “mover a dor da carne”. Ao mesmo tempo, ele nos lembra que a juventude não é eterna, mas será sucedida pelos “maus dias”, forma não muito simpática de se referir à velhice. De forma majestosa, o poeta bíblico usa metáforas para descrever os efeitos do tempo sobre o corpo, em termos que lembram uma tempestade sobre as cidades do oriente médio.

Certo. Mas o que Salomão tem em mente quando se refere a aproveitar a vida? Acontece que a maneira de se aproveitar a vida não está focada no prazer imediato – mas tendo em vista o compromisso de obediência a Deus (Eclesiastes 11:9, 12:1; também na conclusão, 12:13).

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Quem se importa com a cosmovisão?

Fui levado às pressas para o hospital. Sentia dores na região abdominal e nem sequer disfarçava os urros. O primeiro médico que me viu não teve dúvidas e diagnosticou: pedras nos rins – que, segundo alguns, causam dores mais fortes que as do parto. Confesso que, até ali, eu nem me dera conta da relevância dos meus rins (conquanto eles funcionassem, continuariam quase completamente irrelevantes). Não conheço pessoas que se importem com suas amídalas ou seu apêndice, antes que eles inflamem e tornem necessária a intervenção cirúrgica!

Algumas coisas são como esses órgãos citados – se funcionam dentro da normalidade, passam incógnitas. Apenas em meio a uma crise despertam nosso interesse (vez ou outra, sou dolorosamente lembrado de que meus rins existem…). O mesmo raciocínio se aplica ao padrão que orienta nossas escolhas: ele está lá, mas não nos damos conta.

 As razões por trás da razão

O sociólogo polonês Zigmunt Bauman observa que poucas pessoas seriam capazes de identificar, de forma objetiva, os princípios que seguem na vida cotidiana.[1] Apesar disso, todos nós temos respostas para as grandes perguntas que fazem parte da vida. Não se trata de respostas abstratas, mas de orientações à vivência diária, assuntos que envolvem desde escolhas aparentemente pouco importantes a questões morais significativas. Nesse sentido, Heidegger diz que todos somos filósofos – não por profissão, porém no sentido de que existimos e buscamos resposta para nossa existência.[2]

Embora haja inúmeras formas de entender assuntos como Deus, nosso propósito no mundo, o que acontece depois que morremos, etc., há poucos padrões básicos de respostas a essas indagações e outras similares. Dizemos que cada conjunto de respostas forma uma grade conceitual, chamada cosmovisão ou visão de mundo (do alemão weltanschauung). Já foi dito que a cosmovisão é “a suposição fundamental que forma o pensamento e o comportamento das pessoas”[3] ou a “capacidade humana de perceber a realidade sensível”[4] (ou seja, de interpretar o mundo que nos cerca).

A cosmovisão afeta o comportamento, as decisões, os valores, os julgamentos e percepção das pessoas. Portanto, estamos falando de algo que está embutido em cada ser humano, embora muitos sequer saibam definir uma cosmovisão. Entretanto, todas as pessoas possuem uma orientação mental visível em sua vida prática. Logo, elas possuem uma cosmovisão![5]

De uma concepção cristã, é fundamental dialogar com pessoas portadoras de uma cosmovisão distinta em termos significativos para elas: “Cada ser humano é nutrido dentro de um contexto cultural. Indivíduos e comunidades interpretam o mundo por meio desse contexto. Eles avaliam novas ideias, crenças e valores por meio de sua própria cosmovisão prévia. Se somos incapazes de mostrar o evangelho e a específica mensagem dos três anjos em termos que são inteligíveis para eles, estamos falhando em dar às pessoas oportunidade de ouvir, entender e aceitar a Palavra de Deus.”[6]

 Visões em conflito

Ainda assim, o choque entre visões de mundo conflitantes é inevitável, porque em um mundo plural, como o nosso, constantemente interagimos com pessoas que possuem grades conceituais distintas, razão de haver mal-entendidos, divergências, conflitos ou desentendimentos mais sérios.

Às vezes, determinada cosmovisão ultrapassa limites de famílias, clãs e países, influenciando grande massa de pessoas. Nesse ponto, tal visão de mundo chega ao patamar de espírito do tempo (zeitgeist). Essa visão de mundo mais disseminada passa a exercer controle sobre as demais, influenciando-as e as restringindo.[7]

Para entender bem como isso ocorre, pense na seguinte situação: o bairro X de uma grande metrópole é famoso por seu comércio. Depois de alguns anos de desenvolvimento urbano, surge um shopping center ali. O potencial comercial do shopping é capaz de sufocar as lojas menores, ao mesmo tempo em que será capaz de agregar em suas dependências lojas maiores que possuam perfil compatível com sua proposta. De forma similar, o espírito da época saberá agregar visões de mundo compatíveis com sua proposta, enquanto acabará encurralando no ostracismo aquelas cosmovisões que se lhe opõem.

[1]. Zygmunt Bauman, Ética Pós-moderna (São Paulo, SP: Paulus, 1997), p. 41.

[2]. Martin Heidegger, Introdução à Filosofia (São Paulo, SP: Martins Fontes, 2009), 2ª ed., p. 3, 4. No dizer de Francis Schaeffer, “a filosofia é universal em seu escopo. Nenhum ser humano é capaz de viver sem uma visão de mundo; por isso, não há ser humano que não seja um filósofo” (Francis Schaeffer, O Deus Que Se Revela [São Paulo, SP: Editora Cultura Cristã, 2002], p. 42). “Pessoas em toda parte assumem respostas a estas questões [metafísicas] e depois prosseguem em sua vida diária agindo com base naquelas suposições. Não há como fugir das decisões metafísicas [as quais lidam com estruturas para interpretar o mundo], a menos que alguém escolha vegetar – e até mesmo esta decisão seria metafísica sobre a natureza e função da humanidade” (George Knight, Filosofia e Educação: Uma introdução de uma perspectiva cristã [Engenheiro Coelho, SP: Imprensa Universitária adventista – Unaspress, 2001], p. 18.

[3]. Chaltal J. Klingbeil, Iglesia y Cultura ¿Amigas o Enemigas?, in Gerald A. Klingbeil, Martin G. Klingbeil e Miguel Ángel Núñes, Pensar la Iglesia Hoy: Hacia una eclesiología adventista – Estudios teológicos sudamericano em honor a Raoul Dederen (Libertador San Martín, Entre Rios, Argentina: Editorial Universidad Adventista del Plata, 2002), p. 353.

[4]. Fabiano de Almeida Oliveira, Reflexões Críticas Sobre Weltanschauung: Uma análise do processo de formação e compartilhamento de cosmovisões numa perspectiva teo-referente (Fides Reformata, volume XIII, nº 1, 2008), p. 33.

[5]. Para uma reflexão mais detalhada sobre a cosmovisão, veja Douglas Reis, Marcados Pelo Futuro: Vivendo na expectativa do retorno de nosso Senhor (Niterói, RJ: ADOS, 2011), especialmente o capítulo “Crer primeiro, depois ver para crer mais”, p. 31ss.

[6]. Barry D. Oliver, “Can or should Seventh-day Adventist belief be adapted to culture?”, in John L. Dybdahl (ed.), Adventist Mission in the 21st Century: The joys and challenges of presenting Jesus to diverse world (Hagerstown, MD: Review and Herald Publishing Association,1998), p. 75.

[7]. Fabiano de Almeida Oliveira, ibidem, p. 45.

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O adeus (nada fenomenal) de Ronaldo

 Decisivo. Um adjetivo que todo camisa nove gosta de ouvir associado ao seu nome pelos narradores televisivos. Ronaldo, em seu melhor, foi mais do que simplesmente decisivo. A raposa de Minas que o diga: o Cruzeiro revelou ao mundo o atacante dentuço e magricela (dá para imaginar?). Mais tarde, sua chuteira fenomenal era unânime na terra da velha bota durante sua passagem pela Inter de Milão. Ele também encantou no país das touradas, com o uniforme azul-grená. Nem por isso, foi menos galático ao jogar pelo maior rival do Barcelona, o Real Madri. Ronaldo ainda integrou o elenco do Milan, na época dono de uma galeria de brazucas. Mas o fenômeno já estava eclipsado por contusões.

 Sua volta ao Brasil se deu sobre circunstâncias polêmicas. Já não era o Ronaldo goleador e veloz, mas um gordo folclórico, substituto ideal para o falecido Bussunda em comerciais de cerveja. O Ronaldo que saiu na mesma noite carioca acompanhado por três travestis, um para título de melhor jogador do mundo que ele conquistara num tempo so far! Faro de gols que é bom, muito pouco. Roliço e pouco ágil, só lhe restavam chutes dinamíticos e lampejos de sua fenomenalidade pretérita. Num destes raros momentos, marcou um gol esplêndido contra o Santos, durante o Campeonato Paulista (2009), arrancando elogios homéricos e deixando no ar a dúvida se o zagueiro que deveria marcá-lo saberia dizer a cor da bola…

 Todavia, mais do que gols, Ronaldo aparecia na mídia relacionado a filhos, sendo Alexandre o último a ser reconhecido pelo atleta. Contundido, contou com a paciência da Fiel, que não costuma ser muito paciente com jogadores infiéis – à camisa do clube, para deixar claro. Nas últimas semanas, o corintiano sem libertadores (ué, não se acostumou ainda?!) e engasgado com a disputa do título brasileiro que voou das mãos do time no ano passado, passou a criticar Ronaldo. Muitos fizeram mais do que isso: escorraçaram, hostilizaram, odiaram o craque. Portanto, uma manifestação de raiva, digamos, fenomenal!

 Além disso, houve o caso da troca de farpas internéticas entre Ronaldo e Neto, os dois gordinhos mais lembrados pelo torcedor do Parque São Jorge. No fim, parece que Neto decidiu a parada: o que ele pedia insistentemente, Ronaldo atendeu. Assim, terminou a carreira de um dos maiores jogadores dos últimos quinze anos. O que será do futebol sem Ronaldo? Bem, me arrisco a dizer que continuará como sempre. Dói afirmá-lo, mas Ronaldo já não fazia muito diferença dentro de campo. Ronald, um dos rebentos do jogador, percebeu isso e, na primeira oportunidade, usou a figura paterna para se aproximar do nome atual do jogo, o argentino Messi.

 Se o futebol sem Ronaldo passará bem, obrigado, o que dizer de Ronaldo sem futebol? Diversos atletas seguem carreira como empresários, e parece que o inteligente fenômeno já tem feito isto, ligando-se a atletas como Neymar e Anderson Silva, outros dois artistas dos pés (cada qual a seu modo). Mas Ronaldo merecia o tratamento hostil de corinthianos e as piadas maldosas de jornalistas? Em sua despedida, ele mesmo revelou o hipotireoidismo, descoberto há quatro anos e responsável pela sua forma esférica, pouco atlética. Em meio a tudo isso, o jogador celebrado pela imprensa e homenageado por entidades e clubes do exterior pelos seus feitos, sai com um gosto amargamente francês (sim, a França não está entre as melhores lembranças do craque). Fica, sobretudo, a sensação de que Ronaldo poderia ter encerrado a carreira antes, conservando assim, na memória dos amantes da bola, aquela reverência que ele despertou um dia pelos sacrifícios que fez em nome do esporte e a admiração de todos, que lhe rendeu a justa alcunha de fenômeno.

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Papa afirma que preservativos servem somente para prostitutas

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O livro do jornalista alemão Peter Seewald nem bem foi lançado e já chamou a atenção da imprensa mundial. Intitulado Luz do Mundo: o Papa, a Igreja e os Sinais do Tempo, o livro de Seewald é fruto de vinte horas de entrevista cedida pelo Papa Bento XVI. Em meio às declarações do pontífice, uma foi alvo especial de polêmica: questionado sobre o uso de preservativos, Bento XVI afirmou que a única exceção para o seu emprego seria no caso de prostitutas, para evitar o risco de contaminação. O papa, conhecido pela rigidez em proibir os preservativos, recebeu elogios de muitas entidades, que enxergaram na declaração uma abertura da Igreja Católica para uma perspectiva mais “atual”. Entretanto, como se poderia avaliar a questão? Devem os cristãos deixar seu “dogmatismo” para atender as necessidades da sociedade atual? O sexo seguro é uma saída legítima para se doenças sexuais transmissíveis?

Quero primeiro me deter sobre a declaração de Bento XVI. Dizer que as prostitutas deveriam usar preservativo, apenas em virtude de sua condição, equivale a dizer que estupradores e maridos adúlteros também deveriam recorrer ao mesmo utensílio! Em ambos os casos, um ato pecaminoso corriqueiro se torna um motivo para que o pecado seja praticado com segurança!

Olhemos a questão como um todo mais de perto. A pressão que recai sobre a Igreja Católica, em particular e sobre a maioria dos cristãos, em geral, é feita no sentido de que aceitem o preservativo como defesa segura contra doenças sexualmente transmissíveis (sendo a AIDS a mais citada). Entretanto, para os cristãos, a preocupação não é essa. Toda a questão envolve a perspectiva da qual se parte. Ou seja: temos que levar os questionamentos a um estágio anterior. Antes de nos perguntarmos: “qual é a maneira mais segura de praticar sexo?”, deveríamos inquirir: “quem pode fazer sexo?”.

Eu sei que, na atualidade, a última pergunta parece ridícula. Ninguém a levaria a sério. Por quê? Pela razão de que a perspectiva secular é disseminada o suficiente para se impor na mente da maioria das pessoas. Isso não quer dizer que os cristãos devam se sujeitar. Temos uma referência: a Palavra de Deus, a qual é sólida e inequívoca. E os não-cristãos, com quem contam? Apenas com o homem como sua própria referência, finita e limitada, volúvel e mutável.

Não importam as modas intelectuais: a Bíblia afirma que sexo é reservado para os cônjuges; assim, se quisermos ser cristãos, nunca poderemos defender o sexo seguro (até porque ele não é de fato seguro: nem quanto ao quesito de evitar doenças, devido aos poros dos preservativos, ou quanto a ser capaz de preservar a integridade emocional). A maneira autenticamente cristã de solteiros evitarem doenças sexualmente transmissíveis chama-se abstinência sexual. Quanto às prostitutas, a solução é outra: conversão!

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Mackenzie e a polêmcia sobre homofobia

A declaração polêmica partiu de um homem acostumado a controvérsias. Augusto Nicodemus, reverendo presbiteriano e chanceler da universidade Mackenzie, certamente é um pensador reformado. Para os cristãos que coçaram a cabeça para entender a expressão, explico: a partir de João Calvino, toda uma linha de pensadores e filósofos dominaram cenários culturais, da Suíça à Holanda, da Inglaterra puritana aos pais da nação americana. Nicodemus, teólogo sério e autor de diversos livros, também fez uma declaração de forte impacto cultural. Ele se posicionou contra o Projeto de Lei da Câmara (PLC) 122/2006, o qual, se aprovado, criminalizará a homofobia (manifestações escritas ou mesmo discursos contrários à condição homossexual serão punidos).

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